À Roda do Turismo

 JOÃO QUINTELA DE BRITO

 

Olhando a carta da Europa vê-se que a Suiça está mais próxima do centro geográfico do continente ao qual pertence, do que por exemplo a Espanha. Se nos interessar saber qual das Nações esta mais próxima do centro de comunicações veremos que a Suiça por dom natural ocupa o fulcro das comunicações. Assim a Suiça é ponto de passagem praticamente obrigatório, enquanto que a nação vizinha esta um tanto afastada.

De o afastamento em o afastamento chegamos ao nosso Pais na periferia do centro demográfico da Europa, afastado do centro de comunicações, constitui de certo modo problemas sério para quem o pretende visitar.

Não ignoramos que as distancias no século actual são obstáculo de pequena monta para alguns, porquanto a aviação permite ligar rápido e não menos eficientemente quase todas as parcelas do globo. Todavia não ignoramos também que tal meio de transporte ainda não esta ao alcance da grande massa interessada em viajar...

Um avião é caro. As viagens tornam-se onerosas. Portanto de facto Portugal está um tanto afastado do resto da Europa dado que a grande maioria de quem viaja ou dispõe do seu carro, ou confia a medo na segurança dos meios de comunicação, sobretudo nos ferroviários. Isso explica que estivesse tanto tempo sem ser motivo de interesse para turistas, a par da pobríssima propaganda ate há anos feita.

Longe do centro populacional da velha Europa, qual sentinela de bruços sobre o mar, o nosso Pais começou há anos a receber de modo crescente, turistas. A propaganda aumentou, o interesse pelo nosso Pais irradiou... Aqueles que nos visitam, por via de regra incitam os outros. Diz-se que dentro em breve se atingira um milhão. Perspectiva agradável para quem julga que se poderá deitar a dormir.

O turismo interessa a toda a actividade humana, em maior ou menor escala. É prudente no entanto indagar se poderá criar alguns problemas, ou acelerar o desenrolar das consequências desse mesmo problema.

Esteve o Pais «fechado» à Europa, indiferente a certos pormenores, alheio a movimentos essenciais... Criou mesmo uma consciência desse estado, a ponto de se repudiarem aspectos da vida alem Pirinéus. De repente abriram-se as portas «puseram-se os altifalantes a trabalhar» convidando a entrada; a pouco e pouco, dia após dia, mas de maneira solvente e irreversível, começaram a afluir indivíduos os mais diversos.

O primeiro contacto entre povos diferentes foi para o português motivo de natural curiosidade, que chegava a tocar a raia do servilismo. Era estrangeiro, era engraçado, podia entrar sem gravata, e andar de, calções onde as portugueses de idêntica ou melhor condição social se obrigavam ou eram obrigadas a entrar engravatados e envergando o seu traje «domingueiro»... Tal ambiente, criou em alguns um sentimento de revolta, noutros o de imitação. Sobretudo, a geração actual começa a copiar, pretendeu ou pretende nalguns casos ultrapassar aqueles que vivem duma maneira diferente, mas suficientemente amadurecida pelo lento desenrolar de anos e de factos.

As consequências têm sido visíveis e é da amarga e não, menos áspera experiência dalguns pais e educadores, que a Sociedade Portuguesa se começa a defender.

Deixemos de momento este aspecto para um dia o abordarmos de novo.

É com certa desconfiança que vemos de momento resolver-se um problema que para muitos e motivo de crescente agrado. Entrada de divisas, venda de terrenos, autêntico volfrâmio com que alguns se permitem temperar os canhões desta batalha de turismo. Receamos pelas consequências, se certas medidas não forem tomadas.

Verificamos que em determinadas zonas já tidas par turísticas se processa uma subida, ainda que gradual, mas progressiva de preços, pois que alguns estrangeiros ou se deixam levar ou dizem abertamente: -é barato... Assim alguns produtos vão encarecendo, não obstante as diligências efectuadas pelas autoridades. Tal subida de preços põe o português em dificílimas condições, Pais uma vez que ele não pode de modo algum comprar a preços tão elevados. Perante um poder de compra baixo sucede que na maioria das vezes não compra ou se a faz, vê os produtos de melhor qualidades irem para as turistas.

Haverá por certo quem possa objectar. No entanto eu vi e ouvi comentários sobre o que inseri, quer da boca dos rudes mas bravos homens do mar, quer dos menos afectos às lides da pesca, mas não menos obreiros deste Algarve quente e belo que tantos anos andou esquecido...

Enumerámos alguns inconvenientes e deixamos aos esclarecidos a sua remoção, tendo em vista que a indústria turística é já uma realidade para o Pais, e também qualquer coisa de muito delicado que convém amparar em todos os sentidos. O que quer dizer, julgamos que o turismo não tem uma só face, mas sim duas: uma agradável e aliciante, outra quiçá perigosa e bastante subtil.

Alias o turismo como actividade humana é susceptível de máximos e mínimos o que pode aconselhar as cautelosos a precaverem-se.

QUINTELA DE BRITO

Albufeira, 22 de Agosto de 1964.

("NOVA ALIANÇA" -1964)

PCR