A VILA DO SABUGAL

João  Quintela de Brito

A vila do Sabugal, tão esquecida parece estar, é uma das mais antigas vilas de Portugal. Edificada sobre um ameno outeiro, espraia-se num abraço feliz com o rio Côa, que foi o fulcro da sua nunca desmentida importância.

A silhueta esbelta do imponente castelo, exemplo impar de cinco quinas e de grandiosidade Piramidal, é como que lânguidamente acariciada pelo variado matiz dos verdes amieiros e não menos acolhedores salgueiros, que proporcionam ao pescador que procura as águas do Côa confortante sombra, naqueles dias solarengos, que caracterizam o seu clima.

A rudeza da pedra nua e cinzenta da região empresta à traça singela das suas construções um ar de imponente humildade e de altiva pobreza, que são apanágios das gentes que as habitam. Alguns autores, admitem que a vila do Sabugal é de fundação anterior a Afonso X, de Leão, mas nenhuns discordam, muito pelo contrário sustentam, que já no reinado de D. Sancho II era a vila considerada como muito importante, chegado mesmo a ser ponto de preferência real. É no entanto, com D. Dinis, que a sua importância se afirma, com a compreensão do homem que forjaria alguns dos aspectos mais importantes da vida lusitana. Quando se fala na vila do Sabugal fala-se implicitamente no seu castelo, que certos autores pretendem ser de primitiva construção, anterior ao Rei Lavrador, porquanto, dizem eles, as necessidades dominantes neste reinado seriam de tal modo fortes que a construção se teria processado em local mais aconselhável. O que é facto é que D. Dinis, o responsável pelo que de magnífico existe no actual castelo, que se haveria de reforçar através das vicissitudes históricas e. que a sua célebre torre de menagem, misto de elegância e de forte tempera guerreira, adquiriu para o presente, e futuro, um lugar de relevo entre as geniais obras dos tempos idos. Os sabugalenses, e os que os visitam gostariam de ver ressurgir das cinzas uma vila adaptada às condições mínimas, que determinam a felicidade dos seus habitantes, e que são a norma da existência humana em terras da Metrópole, herdeiras de tão gloriosas tradições como as suas.É certo que, aqui e além, alvejam obras de grande vulto, como um Palácio de Justiça, uma cadeia modelar, enfim certos melhoramentos grandiosos, mas que estarão, quanto a nós, em berrante contraste com o panorama geral da vida no Sabugal. O progresso de uma terra é, quanto a nós, iniciado à custa de certos aspectos basilares; condições mínimas de higiene, por exemplo que são por si suficientes para confirmar o que atrás dissemos...

A nota dissonante surge tanto mais reforçada quando encaramos com a soberba torre de Braz Garcia, encimada por uma «moderníssima antena de televisão»: a torre enegrecida pelos séculos parece como querer aliviar-se do peso insólito, ainda que de moderna concepção, que lá lhe colocaram Terra de gente honrada e trabalhadora, humilde mas orgulhosa, espera com uma certa dose de estoicismo, que alguém lhe dedique a sua atenção. A falta de braços que se nota, ano após ano no seu concelho, mais reforça todo aquele quadro que podendo ser belo se está tornando triste e que esgota os últimos alentos das suas gentes!

Dispondo de uma entrada soberba, em que o castelo, a ponte e o rio mais parecem pintados na tela sublime do irreal, Sabugal, se dele mais se lembrassem, cremos que poderia concorrer com um pouco, daquilo que as gerações passadas lhe legaram...

Quintela de Brito

"GAZETA DO SUL" 20-10-63