Sobre Protecção Contra Radiações Por João Quintela de Brito Cometendo, aqui e ali, alguns lapsos, dada a impossibilidade de se abordarem todos os pontos cruciais relativamente às radiações ionizantes que são uma das partes integrante dos objectivos da SOCIEDADE PORTUGUESA DE PROTECÇÃO CONTRA RADIAÇÕES, não podemos contudo deixar de tecer mais algumas considerações sobre outros domínios que são enquadráveis nos objectivos. A primeira aplicação em Coimbra do
ecodiagnóstico bidimensional processou-se no ano de 1974 no Serviço de
Obstetrícia da Maternidade Bissaia Barreto e foi levada a cabo por Humberto Jorge.
Em Dezembro de 1997, em Lisboa, no Hospital de Santa Maria, no Serviço de Clínica Médica, dirigido por Arsénio Cordeiro arrancaram ou iniciaram-se os primeiros exames de Ecotomografia Geral a cargo de Carrilho Ribeiro e de Armando Lacerda. Só em 1980, Lisboa passa a dispor duma Unidade de Ectomografia, no IPO. Se na década de setenta, a Tomografia Axial Computorizada, faz o
seu aparecimento, trazendo novas esperanças, quase que em concomitância com a Ressonância Magnética, esta não
concorreu de molde algum, para a minimização da tão grande e utilíssima
descoberta como foi a Tomografia Axial
Compturizada.
Vêem a suceder novas evoluções, assistindo-se mesmo com brilho reforçado, ao florescimento explosivo do crescimento integral da Imagiologia, como ramo mais abrangente, graças à evolução da ultra-sonografia, isto é, nas suas envolventes, qualitativa e quantitativa. A este conceito não é certamente alheio Vilaça Ramos. De imediato, dá-se, como que uma revolução profunda que se traduziu numa fase de consolidação metodológica, no aperfeiçoamento e da melhoria do material, no consequente aprofundar do cabedal de conhecimentos e na racional e já muitas das vezes programada utilização, que reflectiu num progresso a todos os títulos notável. Caminha-se firmemente e a passos cada vez mais largos, para uma utilização efectiva das radiações em Benefício da Humanidade, procurando-se a todo o transe minimizar os seus efeitos negativos. Espera-se não obstante tardar em Portugal o centro onde se processe à Tomografia por Emissão de Positrões (PET) uma das mais avançadas técnicas de diagnóstico médico e de investigação em biomedicina, caracterizando-se por fornecer um melhor conhecimento das doenças, baseado numa informação funcional, bioquímica e molecular, inabordável por outras técnicas de diagnóstico por imagem. O PET é já insubstituível em patologias, que têm uma origem fundamentalmente funcional ou bioquímica. Ao se ter procurado esboçar a recordatória ainda que parcial dum Património Científico-Cultural tão grandioso, como é o nosso, conclui-se que, as radiações são há muito tempo objecto de estudo profundo em Portugal, e que desde muito cedo, cientistas de nomeada se ocuparam de tal. O ano que ora finda traz aos Países de todo o mundo, redobrada atenção relativamente às radiações. Em Maio de 2000 dar-se-ão dois factos de singular importância. O
1º e por ordem cronológica, será a
uniformidade de medidas o mais restritivas possível ditadas pela entrada em vigor no dia 13 desse mês, nos Países de matriz
europeia, integrados na Comunidade, das Directivas que oportunamente verteram a sua essência, para a Legislação Nacional de cada País, membro
O outro, será o X Congresso da IRPA que se realizará no Japão de 14 a 19 de Maio, do ano em referência. Dois factos de singular e profunda importância. O 1º falará por si, se o silêncio gritante de responsáveis persistir, ou se continuarem a alhear-se do problema, o 2º escreverá uma página certamente epistolar na história da Humanidade.. A realização de 14 a 19 de Maio de 2000, na cidade Japonesa de Hiroshima, do 10º CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DE PROTECÇÃO CONTRA RADIAÇÕES (IRPA), será um evento de singular importância Científica. Os temas a ser versados deveras aliciantes enquadram-se, na sabedoria inerente daquela cidade mártir, livro sempre aberto para o estudo dos efeitos nocivos das radiações ionizantes, e catálise de alto rendimento para as investigações relativas à temática da PROTECÇÃO CONTRA RADIAÇÕES. O Japão foi, mercê dum certo determinismo histórico, uma das forjas do conhecimento científico relativo às Ciências das Radiações Ionizantes independentemente, do grande martírio que marca singularmente a história do seu povo devido aos massacrantes e desumanos bombardeamentos atómicos. Passados que são tantos anos, e ao vislumbrar-se a realização do X CONGRESSO DA IRPA na cidade de Hiroshima, antevemos que haverá ensejo para cientistas, no silêncio da dor quiçá já meio adormecida, mas mergulhando no mar já imenso dos conhecimentos científicos hoje disponíveis, discutir as consequências negativas das radiações ionizantes, como resultado duma utilização bélica, má utilização, ou mesmo de experiências mal conduzidas e dos acidentes graves e gravosos que ocorrem em múltiplos domínios, desde o especifico da produção energética, como até dum simples transporte de materiais radioactivos ou nucleares como sucedeu muito recentemente no Peru e doutras aplicações, como por exemplo, incorporação de material radioactivo nos materiais de construção, como sucedeu muito recentemente nalguns países de Tecnologias Avançadas.. Após o lançamento das bombas sobre o Japão, estudos adequados, os únicos possíveis aliás para a época, começaram a ser processados quer relativamente aos sobreviventes, quer os de etiologia vincadamente física e biológica, determinados pela necessidade de se aprofundarem os conhecimentos científicos. Em 11 de Agosto de 1945, dois dias depois do bombardeamento de Nagasaki, o coronel Stafford L. Warren recebendo ordens do General Groves partia da base de Guan, com destino ao Japão onde chegaria a 8 de Setembro à cidade de Hiroshima, a fim de aí organizar um grupo de controlo e avaliação que iria proceder ao levantamento dos acontecimentos. O grupo iniciou de imediato os estudos advenientes dos bombardeamentos que entretanto alguns cientistas japoneses iam também já aprofundando. Os estudiosos debruçaram-se de início sobre os efeitos imediatos de natureza clínica das radiações. Era como que o abrir dum “Capítulo, do Livro Incomensurável,” do conhecimento científico que só havia sido folheado, mas que iria determinar um desenvolvimento de muitos “outros” que por si iriam cimentar novos estudos que se avizinhavam já no horizonte do conhecimento. A pouco e pouco, a Comunidade Científica Japonesa, agiganta-se, e numa atitude superior, sem rancor nem ódios, própria de cientistas de elevado gabarito e de grande estrutura moral, põe mãos à obra na reconstrução. Inicia-se assim um milagre. Começa-se a ver renascer das cinzas, vida e a incrementar-se o desenvolvimento naquelas terras, que tinham sido o cemitério de milhares de compatriotas, derradeiro destino de tantos inocentes, uma Investigação Científica, de grande qualidade.. Começam a aparecer estudos exaustivos cada vez mais interpretativos e já conclusivos, sobre os factos ocorridos e suas consequências. Os estudos iniciais levados a efeito pelas forças armadas americanas, foram conduzidos sob condições que se sabe hoje em dia, dificílimas. Os estudos iniciados pelos militares, enfermavam de algumas carências, rapidamente supridas com a entrada em funções duma Comissão, criada nos princípios de 1947 pela Academia Nacional de Ciências. Tal Comissão dispunha de fundos oriundos de várias instituições das quais destacamos a “Atomic Energy Comission” (AEC). De imediato iniciou estudos e aprofundou os já iniciados. A bibliografia refere que os primeiros incidiram sobre 100 dos sobreviventes dos bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki. Na dinâmica que começou a observar-se, é criada outra Comissão, “Atomic Bomb Casualty Commission” (ABCC) que retomando estudos já iniciados, se debruçou sobre os sobreviventes e seus descendentes, ao longo de mais de 30 anos. Os dados iniciais revelaram um aumento, ainda que fraco de leucemias entre os sobreviventes e uma incidência elevada de cataratas entre os que haviam recebido doses elevadas. Um Grupo de Genética na altura formado, recolheu elementos valiosíssimos relativos a 20.000 nascimentos, vindo estes valores a ser de grande valia para o juízo crítico relativamente às doses atribuíveis à população. O geneticista Herman Muller (1890-1967) que havia em 1920 descoberto os efeitos mutagénicos dos raios x na mosca da fruta e que mercê dos seus valiosos trabalhos viria a receber o Prémio Nobel em 1946, cedo começou a alertar a Sociedade contra os efeitos nocivos das radiações. Tomou parte activa numa série de Conferências sob a égide duma Associação para tal criada com fins exclusivamente humanitários. Desesperadamente informava o público em geral e o esclarecido em particular, sobre os riscos suscitados pelas radiações. O seu esforço acabou por dar frutos conducentes ao reconhecimento dos efeitos genéticos, por muitos cientistas que até então só se haviam debruçado sobre os efeitos somáticos minimizando os primeiros. A qualidade dos estudos melhorava, dia após dia. Formularam-se novas conclusões, que fizeram que as preocupações, ao adensarem-se,
viessem a contribuir para que fossem sendo conhecidos novos horizontes,
ainda envoltos na bruma da
avalanche dos infaustos acontecimentos.
O relatório de 1958 do Comité Científico das Nações Unidas ( UNSEAR) sobre os efeitos da radiação atómica, descrimina, hierarquizando as origens radioactivas e avalia os perigos biológicos baseando-se nas doses conhecidas e efeitos documentados. Este documento que na verdadeira acepção, relata um historial riquíssimo, foi uma síntese do conhecimento acumulado que viria a permitir esclarecer os efeitos das radiações e, com bases biológicas bem assentes, iniciar-se toda uma dinâmica conducente ao estabelecimento dos limites de dose. A Idade Atómica abria assim um grande horizonte para uma Ciência que se iria desenvolver duma maneira vertiginosa determinada pelas consequências reais mas inúmeras das vezes, funestas, a que urgia fazer frente. Na década de 1950 muitas
foram as Sociedades Científicas que se formaram, assinalando-se das relativas às “CIÊNCIAS RADIOLÓGICAS E AFINS”, “Radiation
Research Society” (1952), “ Society of Nuclear Medicine” (1958) e a “American
Association of Physicists in Medicine” (1960), mas cuja fundação remonta de
direito à década dos anos 50.
A pouco e pouco e da formação dum pequeno grupo de cientistas, nasce uma especialidade nova que emerge profissionalmente com a formação da “Health Physics Society” que toma forma jurídica em 1956. Em 1975 tinha já 3500 associados e no “Radiation Protection Professional’s Directory & Handbook 1997-1998”, encontra-se referido que o seu número de sócios ultrapassa os 6.500. Curiosamente das estatísticas relativas a 1998, insertas no "Handbook" da HPS, vê-se que o número total de sócios baixou para 5916. A distribuição geográfica é a seguinte: 5561 nos USA e possessões, 146 no Canada e noutros Países 209. Em Portugal há três sócios, dois em Lisboa e um em Coimbra. Após o aparecimento da HPS e emergindo de todo o processo histórico de que uma determinante se encontra em Hiroshima e Nagasaki, nasce a INTERNATIONAL RADIATION PROTECTION ASSOCIATION, de que aliás a Sociedade Portuguesa de Protecção Contra Radiações é afiliada, órgão que promove e concorre para o interesse comum da investigação em domínios das ciências radiológicas e das múltiplas valências de todo o espectro electromagnético, nas suas inúmeras aplicações, independentemente das suas configurações nacionais. A IRPA, como grande envolvente interessa-se pela Protecção do Homem e do Meio Ambiente. Tendo como objectivo o estudo, dos efeitos nocivos, de todas as formas da radiação electromagnética, e o de concorrer para a melhoria das condições de utilização, e da concepção de dispositivos produtores de radiações procurando maximizar todas as capacidades e aplicações benéficas, que se possam traduzir no Bem Estar da Humanidade, como teria dito um dos seus impulsionadores, K.Z.Morgan, recentemente falecido. O X CONGRESSO INTERNACIONAL DA IRPA, sendo patrocinado pela Japan Health Physics Society em colaboração estreita com as Sociedades Chinesa de Protecção Contra Radiações e da Associação Coreana de Protecção Contra Radiações virá a ser o marco que fará a transição do passado para o futuro, onde o processo histórico, mormente o sobrecarregado pelas negatividades, será possivelmente reavaliado face às inúmeras descobertas que a humanidade faz no mar tormentoso dos seus sofrimentos. Às nossas congéneres, endossamos as nossas maiores felicidades afim de que o evento cientifico que muito longe de nós, levam a efeito, venha a ser um marco bem cinzelado que permita a consolidação duma mais ampla cooperação científica que se traduza também numa maior e qualificada difusão dos conhecimentos relativos à nocividade das radiações, quer sejam ionizantes, quer não ionizantes, providenciando para que elas sejam aplicadas para uso exclusivo, em Benefício da Humanidade. A preocupação da SPPCR, está integrada no “Trinómio Saúde-Trabalho-Comunicação,” traduzindo numa linha com ponto de convergência próximo todas as preocupações e anseios de vários Organismos Nacionais e Internacionais, dos quais nos permitimos salientar, dos Nacionais, a Direcção-Geral da Saúde (que é a detentora das competências legais relativas às radiações), o Instituto Tecnológico e Nuclear, no seio do qual foi criado pelo Decreto-Lei 311/98 de 14 de Outubro de 1998, o Departamento de Protecção Radiológica e Segurança Nuclear, o qual é parcialmente o herdeiro do Serviço de Protecção Contra Radiações da ex-Direcção-Geral do Laboratório de Física e Engenharia Nuclear, da ex-Junta de Energia Nuclear, o Instituto Nacional de Meteorologia, a Protecção Civil do Território e o Instituto de Desenvolvimento e Inspecção das Condições de Trabalho, e Internacionais, tais como a Organização Mundial de Saúde, a Organização Internacional do Trabalho, a Agência Internacional de Energia Atómica, a Agência de Energia Nuclear a Organização Pan-Americana da Saúde e a FAO, que muito se tem preocupado com a temática das radiações, quer ionizantes, quer não ionizantes e que constituem mesmo, estas últimas, uma das grandes preocupações a que o Parlamento Europeu, em 5 de Maio de 1995 deu a devida relevância, esperando-se que os governos ponham em prática as recomendações. Em resumo, poderemos afirmar que Protecção Contra Radiações na sua mais ampla abrangência requer, uma investigação profunda e contínua, centrada no Meio Ambiente e tendo como protagonista principal o Homem.
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