Dado o grande interesse e natural preocupação que a emigração
clandestina tem suscitado na opinião pública portuguesa, propomo-nos
abordar, ainda que de um modo muito geral, os fenómenos migratórios. Assim, ao
falarmos sobre migrações, temos que atribuir-lhes duas coordenadas; uma espacial
e outro temporal. À coordenada espacial, isto é, quanto ao considerarmos as
migrações como fenómenos que se produzem de, ou para um lugar determinado,
podemos atribuir-lhes um ponto de partida e outras de chegada. e dividi-las
também em interiores, continentais e intercontinentais
Quanto à segunda coordenada, a temporal, considerá-la-emos como
integradas em pré-históricas, históricas e estatísticas: as primeiras foram
enormes e violentas. Se assim não fosse, mal se compreenderia que o homem nos
tempos actuais se tivesse distribuindo de uma maneira tão uniforme se tivermos
em conta que no inicio, segundo a maioria dos antropologistas, o homem se
concentrava como que só em determinadas partes do globo.
Podemos aventar tal hipótese dando crédito ao conjunto de
caracteres paleontológicos que vão sendo do nosso conhecimento: graças a eles,
admite-se como certo que determinadas regiões jamais poderiam ter sido o berço
da humanidade, tais como por exemplo a Austrália, e a própria América, tão ciosa da "Cultura Ocidental»...
Vallois leva-nos a aceitar que parece ter sido a Ásia o fulcro
da raça humana, do qual irradiaram as diferentes etnias.
Este autor não se encontra só, mas amparado por Elekstedt que
defendia a hipótese de que foi a Ásia Central o núcleo irradiante, baseando-se
nos diferentes fenómenos epirogénicos que foram isolando agregados de humanos.
Segundo ele este isolamento forjou, através dos séculos, as diferentes
raças.Não entrando em considerações sobre a sua teoria, podemos
concluir o que aqui afirmamos isto é que se deram grandes e não pouco violentas
migrações quando dos tempos pré-históricos.
Não é fácil, ou melhor, não é natural, que um individuo emigre
se dispuser de um bem estar relativo o que quer dizer que parece poder-se
atribuir à emigração uma causa económica ponderável, ainda que outras de
etiologia diferente possam existir.
É evidente que não excluímos as migrações maciças que certos
fenómenos naturais provocam, abandono total de terras, quer por inundações
periódicas mas progressivas, quer por inundações aleatórias, mas verdadeiramente
assustadoras, quer por erupções, quer ainda no caso já mais delicado dos
indivíduos e famílias que fogem ou são expulsos, como consequência de questões
de índole politica ou mesmo religiosa.
Não deixamos no entanto de frisar que a par de todas estas
causas, subsiste como conclusão, que só emigra quem procura melhores condições
de vida, se bem que haja quem afirme que pode estar na base da migração, o
movimento natural, instintivo, que concorre para que os indivíduos se dirijam de
umas, para outras direcções...
Falámos, ainda que ao de leve, no facto de haver indivíduos que
emigram, ou porque querem, ou porque a isso são obrigados: é 1ógico portanto
definir as migrações como livres ou forçadas.
Este fluir de indivíduos, pode ser aproveitado e dirigido
quando em regime de força ou quando livremente praticado; desse modo, pode-se
lhe atribuir uma direcção o que e dizer as migrações podem ser dirigidas.
A própria ocupação militar pode concorrer para que os
indivíduos se fixem nas terras ocupadas, fazendo com que os seus familiares vão
ao seu encontro: é um caso que tem larga prática e que se verifica nos nossos
dias. De qualquer das migrações. sucederam núcleos de determinadas comunidades
que continuaram ligadas a «Metrópole» por laços espirituais...
Evoquemos, por o julgarmos curioso, o caso que se passa com as
abelhas, para dai concluirmos algo à escala humana. Quando o equilíbrio vital de
uma colmeia começa a ser afectado pela inevitável luta entre as abelhas-mestras
verifica-se uma cisão, abandonando uma parte a colmeia primitiva, para se fixar
noutro local: quer dizer, a própria natureza favorece de modo instintivo o
animal, e melhor ainda o homem, na escolha e procura de melhores condições.
Se o espírito do homem não pode influir no súbito desenrolar
dos acontecimentos de índole estritamente natural, que como vimos, funcionam
como verdadeiros êmbolos de compressão e de expansão das massas humanas
não é menos certo que os indivíduos que viveram ao longo dos períodos em que se
produziram migrações não tiveram noção do desenrolar do fenómeno, do qual não
deixaram de fazer parte como elemento integrante.