SOBRE O PERIGO DOS INSECTICIDAS
Por João Quintela de Brito
Algum leitor mais atento terá verificado que em determinadas épocas do ano a frequência de acidentes que se dão com os chamados insecticidas é muito elevada. Compreende-se tal dado que a sua aplicação é mais intensa nessas alturas.
Para além do imprevisível, que o homem não pode de modo algum controlar e que caracteriza como se sabe toda a sua vida e campo de acção, há um mínimo de disposições, de cuidados que é necessário atender, afim de reduzir ao mínimo os acidentes provenientes duma má administração dos insecticidas ou a não observância das instruções estipuladas pelos responsáveis.
Tivemos o cuidado de coligir algumas noticias referentes a acidentes ocorridos num curto espaço de tempo como consequência do use imoderado ou demasiado crédulo dos insecticidas. Entre elas destaca-se a tragedia de Luanda ocorrida com o "Parathion". Transcrevemos parte da notícia saída num dos jornais da capital: "Luanda, 27 - Teve repercussão em todo o mundo português e tamb6m no estrangeiro, o trágico acidente que se verificou em Luanda na noite de 19 para 20 do corrente e que vitimou 28 crianças no lar da Miseric6rdia. A Imprensa divulgou amplamente o facto e não faltaram especulações tendenciosas ou opiniões precipitadas"... (D. N.)
Podemos citar mais algumas notícias. Por exemplo: " O mistério da morte dos três rapazes do Soito","Quis pôr termo à vida porque matou duas jumentas com insecticida", etc.
Há muito que o homem procura lutar contra os parasitas que lhe limitam a vida
quer como agentes transmissores de doenças quer como seres que limitam as subsistências. No aspecto agrícola estamos em crer que foi em 1865 que o homem começou a empregar em larga escala substancias t6xicas com vista a proteger as colheitas. O aceto-arseniato de cobre foi largamente utilizado na protecção da batateira que era frequente e fortemente atacada por insectos fitofagias. A partir do s6culo XIX começou segundo se crê, a corrida aos insecticidas. Para tal concorreram os notáveis processos de síntese orgânica então descobertos e largamente aplicados.
A humanidade deve muito ao trabalho árduo e por vezes pouco perceptível daqueles homens que no labor penoso do dia a dia se dedicaram de corpo e alma à descoberta de produtos que podem minorar os padecimentos humanos causados directa ou indirectamente por parasitas. Graças a esse trabalho desconhecido da maioria mas altamente reconhecido por estudiosos, regiões há pouco insalubres, são hoje habitáveis, povos inaptos pelo poder degenerativo das febres, são hoje seres capacitados, dispondo dum razoável bem-estar até então desconhecido.
A aproximação ainda que modesta e notoriamente insuficiente das substâncias necessárias ao acréscimo populacional, tem sido melhorada graças por exemplo ao extermínio dos insectos fitofágicos que destruíram e mau grado nosso continuarão a destruir, inúmeras colheitas.
Ao reconhecer o valor dos insecticidas não podemos concordar com as palavras do Sr. Eng. E. C. que parece ver nos insecticidas um remédio radical isento de consequências mediatas ou imediatas ainda que diga que a1gumas das criticas "são bem fundamentadas"... Entre os aspectos negativos temos a considerar entre outros, a ruptura do chamado equilíbrio natural: Na Natureza existem insectos que se alimentam de outros, alimentando-se estes por sua vez de plantas.
Sucede que um determinado produto químico destinado a matar os insectos herbívoros, vai em inúmeros casos exterminar os carnívoros e "engordar" os "herbívoros". Assim desaparecendo os insectos carnívoros o número das herbívoros» aumenta imenso acabando por destruir as colheitas.
Citemos a prop6sito do assunto um caso passado em Africa. Um cafezeiro sofria de ataque dum determinado insecto que minimizava o lucro habitual. Os proprietários resolvendo melhorar a colheita do café mandaram pulverizar a zona atacada com insecticidas à base do D.D.T.
O resultado foi absolutamente contrário às previsões... Isto é, a plantação em lugar de dar lucro ainda que baixo, quase que desapareceu. A explicação para tão insólito facto foi encontrada. É que o insecto que era necessário combater era insensível ao D.D.T. e um outro que também existia e que se alimentava exclusivamente do que era efectivamente pernicioso era extremamente sensível ao D.D.T.
O verdadeiro parasita do cafezeiro proliferou de forma tão extraordinária que arrasou a plantação.
Há casos em que o pr6prio D.D.T. ajuda a proliferação dos insectos, pois que se admite que concorre para um aumento da taxes de azoto na planta, o que por sua vez se crê estar ligado com o numero de ovos postos por cada parasita.
O nosso trabalho visa alertar os espíritos sobretudo para o perigo que corre o homem, quando como se disse não se observam as necessárias disposições de segurança, ou quando se confia desmedidamente nos insecticidas...
É já bem sabido que as florestas correm sério risco que advém da administração dos insecticidas. Quando se "protege" uma floresta com insecticida, para exterminar esta ou aquela espécie parasitária, é fora de dúvida que se está também a exterminar a formiga.
Ora, se esse tão curioso quanto aborrecido animal desaparecesse da floresta, poder-se-ia afirmar sem sombra de exagero que a floresta desapareceria com ele. Gosswald fez inúmeros estudos sobre tal problema, e acabou por concluir, que para proteger uma floresta é por vezes preferível ajudar a proliferar a formiga do que a usar-se insecticidas. Ainda não há muito tempo a Franga e a Alemanha, negociaram formigas com o fim de justamente de protegerem culturas...
E assente quer como consequência dos exemplos apontados, quer por inúmeros outros resultados, que os tratamentos químicos podem provocar uma modificação da fauna. Basta, compreender-se que ao pretender-se combater um insecto "herbívoro", se extermina o carnívoro, que nalguns casos 6 alimento de determinadas espécies animais, que se vêm obrigadas a emigrar.
Todavia os aspectos mais importantes para n6s, são os respeitantes A toxicidade relativa aos animais a sobretudo ao homem. Inúmeros animais, quer domésticos quer ainda todos aqueles que contribuem de modo directo ou indirecto para a alimentação do Homem são sensíveis aos insecticidas. A epicultura atravessa uma crise bastante grave devido ao emprego pouco esclarecido dos insecticidas.
Em 1954, por exemplo, ao pretender-se proteger uma cultura de Golza utilizaram-se produtos sobretudo fosforados e o hexaclorociclo hexano, ou Seia o vulgarmente conhecido H.C.H. As abe. lhas atraídas pelo néctar penetrante da planta entraram em contacto com aqueles produtos que as dizimaram. Mas o mais curioso no caso evocado é que em 1950 só se reconhecia como bastante pernicioso um só parasita da Colza e que da protecção exagerada da cultura, utilizando os produtos atrás mencionados e outros, resultou por motivos um pouco discutíveis o desenvolvimento de um outro indivíduo parasitário que para se combater, implicava a época da floração da planta. Por sua vez essa época, era como é sabido a do labor das abelhas... a conclusão é bem lógica! Ainda que as abelhas se pudessem fechar, resguardando-as, é evidente que se estava a limitar a epicultura!
Depois de termos ultimado este trabalho
PORTO, 29 - O alarme é justificado: cerca de cinco milhões de abelhas morreram já, no concelho da Maia, em consequência do uso indevido de insecticidas... A concluir a noticia diz: - Quanto às causas de tanta mortandade, está averiguado que se deve ao uso indevido de insecticidas com que são pulverizadas as árvores de frutos.
Todos os insecticidas trazem indicações de uso, mas alguns agricultores, por ignorância pulverizam tudo e até as pr6prias flores. Assim, as abelhas quando lá poisam em busca do néctar, sugam também o veneno» …
O efeito nocivo exercido na fauna aquática, isto é, a destruição de determinadas espécies piscícolas quando se pretende destruir as larvas aquáticas de certos insectos, não é menos importante.
Acontece que para destruir as larvas dos insectos, como que por ironia do destino, na maioria dos casos, os produtos que se têm de utilizar são altamente tóxicos para os peixes de maior interesse alimentar. Há muitos outros aspectos a considerar de não menor importância como a acção sobre os vegetais e sobre o próprio solo. Estes dois aspectos são bastante aliciantes mas não podem ser tratados num modesto trabalho que visa advertir as pessoas do perigo que os insecticidas oferecem se descurarem as mais elementares regras de prudência.
Não é necessário evocar-se razões de índole científica para se compreender que o homem está exposto aos efeitos tóxicos de numerosos insecticidas. Começamos neste modesto trabalho por citar algumas notícias que falam por si!...
Em certos animais o D.D.T. penetrando através da pele provoca uma intoxicação as vezes aguda, outras progressiva, mas fatal pela degenerescência que provoca.
Quanto ao homem e dado que 6 relativamente a ele que mais nos preocupamos de darmos alguns apontamentos pedimos a todos quantos confiam desmesuradamente nos insecticidas, que devem seguir a risca as instruções dos responsáveis, melhor dizendo, dos vendedores, que em principio devem estar aptos a aconselhar.
Se nas considerações que inserimos focamos alguns aspectos que foram uma verdadeira lição pratica para todos que julgaram revolver o problema com a aplicação dos insecticidas, cremos ter chamado a atenção do que pode suceder, quando a ignorância e a credulidade andam de mãos dadas. Vejamos por exemplo um destes caos: vamos citar uma parte de uma notícia saída no "Diário Popular* acerca da morte de uma mulher que falecia pouco depois de lavar um burro com insecticida.
"AVELAR, 16 - não estão ainda esclarecidas as causes da morte da G1ória dos Santos, do lugar
da Rapoula que faleceu pouco de. pois de ter procedido a lavagem de um burro com insecticida. A mulher lavara o animal com um produto t6xico dissolvido em um litro de água apenas, quando devia ter sido dissolvido puma dezena de litros de água...*
Casos como este são infelizmente frequentes quer no nosso país quer nas restantes partes da antroposfera. Aliás com os antibi6ticós sucedeu o mesmo. Os resultados brilhantes das primeiras aplicações entusiasmaram de tal modo o homem que -durante bastante tempo por tudo e por nada se ministravam antibióticos.
Passaram-se anos e a amarga experiência das aplicag6es mal sucedidas veio demonstrar que o uso indistinto de um produto de excepcional interesse para a Humanidade podia ocasionar acidentes mortais.
A finalizar tentamos alertar os espíritos repetindo algo que já foi dito, para o que de contingente é uma aplicação precipitada de insecticidas.
Ás intoxicações imediatas, na maioria das vezes fatais somam-se, as devidas absorções parciais que conduzem a estados de extrema gravidade.
Com a descoberta e consequente aplicação da radioactividade, o homem pode referenciar; _ localizar insecticida no decurso da sua acção. Assim, verificou-se, utilizando derivados do DDT e do HCH contendo bromo radioactivo que esses insecticidas em proporções que foram bem determinadas se encontravam no pão proveniente de farinhas originárias de culturas que haviam sido sujeitas ao tratamento dos insecticidas.
Estudos laboriosos nos E.U.A. tem levado a concluir que o recruscedimento de determinadas doenças hepáticas que se verifica actualmente, é atribuível à aplicação de insecticidas sobre produtos alimentares.
"REPÚBLICA" 14 de Abril de 1966