A A GUERRA E O HOMEM
João Quintela de Brito
O tema atrai-nos ainda que saibamos que a nossa modesta capacidade não nos permite ir muito longe. No entanto ocuparemos um pouco do nosso tempo com tal assunto porquanto daremos um pouco de prazer a nós próprios a par do que julgamos interessar aos outros.
Certos autores entendem e com certa razão que as guerras foram marcos com os quais
Se foi diferenciando a vida humana. Pretendem até que a actividade do homem anda de maneira directa relacionada às guerras.
Interessa antes de prosseguirmos tentar definir o que entendemos por guerra e distinguir tal conceito do de luta.
O camponês que durante o ano trabalha sem cessar, desde o amanho das terras à recolha dos produtos, luta, podemos dizer com a Natureza dia após dia.
O cientista que da observação dos fenómenos e da elaboração teórica de certas premissas, conquista dia após dia, novos meios que dotam o homem de maior ou menor capacidade de adaptação vital, luta no seu laboratório com a Natureza.
O estômago no processo digestivo luta hora a hora com os alimentos.
Passemos agora a outros aspectos. A Alemanha esteve em guerra com a Franca. A Espanha esteve em guerra com a Inglaterra. Se a Espanha esteve em guerra com a Inglaterra foi porque havia um elemento subjectivo, a intenção de fazer a guerra, e um elemento político, a organização.
A fim de evitarmos confusões convêm desde já diferenciar melhores lutas de guerra. Grupos de indivíduos podem lutar sem guerrearem; isto é podemos portanto procurar a maneira de melhor definir a guerra, distinguindo-a de simples luta.
Para isso salvo algumas excepções, admitiremos que a guerra pressupõe uma vontade colectiva e um interesse também colectivo. É difícil em rigor precisar bem quando se está no campo privado.
Além das considerações feitas diremos também que a guerra tem implícito o aspecto jurídico porquanto não cremos que haja alguma que não seja regida por um certo número de normas ainda que os partidos beligerantes as não observem.
Há muitas teorias sobre o que poderá ser a guerra. Muitos dos autores discordam neste ou naquele pormenor. Todavia não há dúvida que a guerra é uma forma violenta de se impor a um grupo (o vencido) mais ou menos organizado e duma maneira metódica e deliberada a vontade dum outro grupo que será por definição o vencedor.
A grande maioria dos autores exclui a chamada guerra fria da classificação, uma vez que para elas não há o aspecto sanguinário. Contudo no nosso modesto entender permitimo-nos considerá-la como uma das modalidades de guerra, visto que há uma imposição psicológica tão violenta que é por vezes mais ponderosa, do que aquela que adviria coma consequência de um litigio à mão armada. Da guerra fria resulta uma instabilidade emocional tão funesta como aquela que é consequência da guerra tida como clássica.
Podíamos ocupar a nossa atenção com o papel que a guerra desempenhou na mitologia, suas interpretações face às diferentes teorias teológicas, filosóficas, morais, jurídicas e sociológicas. Omitiremos tal a fim de podermos atingir mais rapidamente o fim em vista deste artigo.
Paira no ar dia após dia após dia, a angústia do dia que se avizinha. Não há dúvida que o homem não desagrega de si a ideia de um conflito. Aliás onde o homem vive, há luta, onde ele quer afirmar a sua supremacia há guerra.
Sociólogos optimistas opinavam que a industrialização teria como consequência o fim das guerras. De modo algum podemos sem certa ironia inserir o que inserimos visto que a, amarga experiência dos últimos anos provou-nos que a industrialização fez renascer senão o direito, o desejo da guerra
Há em todos os indivíduos um desejo inato de luta que aliado à inteligência os conduzem às guerras sem delas nada beneficiarem, a não ser por exemplo o desgaste acelerado de bens económicos.
Não responsabilizamos este ou aquele sistema político económico dos conflitos passados ou futuros.
Temos da análise ainda que modesta, feita, concluído que certos sistemas tidos como naturalmente ávidos de lutas são em determinadas ocasiões os mais pacíficos de facto.
Vejamos por exemplo o panorama da Europa na Idade Média: conflitos sobre conflitos, que começam a desaparecer com a centralização do poder real, para anos mais tarde lançarem o velho continente na guerra dos 100 anos, a par de outras.
Ainda que a natural preocupação do homem face ao desenrolar dos acontecimentos possa ser esbatida pela já tradicional fé nos planos de desarmamento, é fora de dúvida que tal em nada vem remediar a situação internacional senão até a estabilidade sociológica
Foram vários os planos e tratados que se estabeleceram ao longo da História, à medida que o homem ia tendo o domínio de novas armas, que passava da pedra a outro instrumento mais mortífero, gerava-se um outro sentimento que preconizava como conclusão o desarmamento parcial ou completo.
Cerca do século XII o Papa propunha a proibição do arco e da flecha…
O célebre Concilio de Latrão, tinha implícito em si, um plano de desarmamento.
De então até hoje vários conflitos se geraram, vários planos de apaziguamento se estabelecerem.
A conclusão é bem triste, o homem lutará deliberadamente ainda que escreva com sangue a palavra Paz, e a proclame a todos os momentos. Veremos no futuro se não se volta a repetir este cenário!
Ao longo do tempo processaram-se Guerras terríveis. Uso desmedido se tem feito de determinados poderes, incorrendo-se assim ano após ano geração após geração no uso de outros.
Às flechas seguirem-se as bombardas, a estas seguiram-se os canhões, à metralha e aos gases mortíferos seguiram-se os bombardeamentos atómicos.
Ao Concilio de Latrão e a outros concílios seguiram-se conferências sobre conferências sem que a guerra deixasse de ser o mais violento e espectacular de todos os fenómenos sociais.
Ainda que fosse possível o homem de antecedente em ante cedente deixar as armas actuais viria um dia, que um louco, faria uso de tudo ao seu alcance para fazer prevalecer a sua vontade.
"CORREIO DE ABRANTES" 13 de Setembro de 1964
Em 2012 pergunto, o que se tem passado?
Brevemente viremos a este tema... |