O DESENHO INFANTIL E A EDUCAÇÃO DOS OLHOS

Por  Quintela de Brito

 

Não obstante sentir falsear em mim toda e qualquer habilidade artística, nem por isso deixo de me interessar pelo desenho.

Assim como desenhista amador detenho-me inúmeras vezes a observar os desenhos dos outros. Como estudante de filosofia que fui interesso-me particularmente pela primeiras balbuciações artísticas do homem :- O desenho infantil.

Natural será que da observação simples que faço, formule as mais simples considerações.

Uma criança de 3 para 4 anos, em se apanhando numa sala de estudos, sente natural e forte atracção pelo quadro preto, e, se a colocarem sobre uma cadeira, desenhará una rabiscos sem significação alguma, notando-se que o faz com vivo prazer.

A explicação do facto não é fácil. Só conjecturas são possíveis. Parece que uma criança vê gatafunhos inextricáveis, não o que elas realmente. representam , mas sim o que a sua espiritualidade lá projecta. O desenho ficou interior. O artista concebeu possivelmente uma criação magnifica, mas faltou-1he o poder de expressão por imperícia ingénita ou escassez de cultura artística. Será assim?

Eu no entanto, tenho para mim uma explicação que me parece mais. provável. Possivelmente o desenhista infantil não tem concepção alguma arquitectada no seu espírito imbele.

O que, ele tem é uma faculdade que se reencontra igualmente no selvagem: a criança tem o poder de convencionar: aqueles riscos representam arbitrariamente um determinado objecto, uma casa ou cachorro, não por um acto de fé, mas por um acto de vontades A criança é um comprimido de vontades Não conheço mesmo criatura mais voluntariosa. Quer que os seus, gatafunhos representem um cavalo: nenhum poder do mundo se opõe à sua vontade; aqueles riscos são um touro, uma ave, um boneco.

A sua facilidade de convencionar, supre, deste modo a sua incultura artística. Os seus riscos não são o que traduzem; tem significação que ela lhes atribui, por um acto de vontade.

Examinemos agora para o provar, se tal nos for possível, os desenhos de uma criança de idade compreendida, entre os cinco e seis anos, quando anda na brincadeira, em jogos que metem desenho no solo.

Nós sabemos o que significa o desenho que fizeram, não pelo que lá está, mas pelo nome que lhe puseram.

Parto do principio que, se um xadrez riscado no solo com uma telha, visa o jogo da «Semana», tal desenho com sete casas, que se percorre a pé coxinho, representa aquela divisão do tempo. E se as crianças fazem um desenho muito esquisito, e se põem aos pulos com uma certa regra e exigentes condições e lhe chamam o jogo do "Homem" eu calculo que aqueles rabiscos representem um homem embora se pareça tanto com o rei da criação como um ovo com um espectro.

Podemos ainda forjar outra interpretação. Os traços irregularíssimos que a criança desenha na terra, na parede, na ardósia, nas portas das casas; não representam realmente coisa alguma. O petizinho, não tem concepção alguma nem boa nem má.

Aquilo é uma produção acéfala instintiva, sonambúlica.

O homem em estado de hipnose desenharia da mesma maneira. Não sabe o que faz. É um instrumento passivo das reminiscências ancestrais.

Faz o que é possível dada a imperfeição dos seus meios espirituais e materiais. Mais tarde é que descobre certas parecenças por vezes bem longínquas, que o levarão a classificar as suas criações por analogia com os objectos que o rodeia.

Chega a convencer-se que tal desenho foi feito para ser a imagem dum objecto seu conhecido; mas em verdade, só mais tarde lhes descobriu as relações de semelhança.

Nessa altura é que lhe nasce a vontade de fazer a representação desse objecto, e se aplicará por retoques sucessivos a dar-lhe ainda mais realce.

Desenhar tem fortes exigências a que uma criança não pose satisfazer.

A condição essencial para se ser um bom desenhista, é um grande poder de observação, faculdade que a criança ainda não possui, e o animal nunca terá.

Veja-se a pintura japonesa antiga, os rostos são todas iguais. Mas se tal não nos for possível observe-se as gravuras de Apocalipse de Lorvão; as caretas são todas iguais como se tratasse de uma prova caligráfica.

E isto significa uma pobreza de observação que não lhe deixa ver os traços mais característicos, as arestas mais salientes, os vincos que lhe são próprios.

Vi desenhos pré-históricos, desenhos de animais da autoria Fídias* de Altamira. É a mesma coisa. Denotam uma cegueira de observação espantosa Não vêem certas particularidades que a nenhum homem de hoje escapariam.

Nós mesmos quando somos maus desenhistas, e por insuficiência de observação

Todos nós sabemos distinguir as pessoas; este e Pedro, aquele e Paulo Mas não somos capazes de os caricaturar porque os caracteres que os diferenciam nos ficam desconhecidos.

O que mais admiramos nas figures do tríptico do Grão Vasco, não é a firmeza e a perfeição do traço: é a variedade de expressão do rosto. Aquelas personagens são inconfundíveis.

Tenho a impressão de que a criança dá conta da dificuldade da empresa.

Enquanto para ela desenhar é atribuir a gatafunhos quaisquer uma significação convencional, tem muito gosto pelo desenho.

No entanto à medida que lhe fazem ver a imperfeição do trabalho, a sua inconformidade com a realidade, ou, que ela mesma a descobre por uma conscienciosa auto-crítica ninguém a vê mais tocar nos seus lápis e nas suas tintas que lhe eram tão queridas na sua infância.

A conclusão deste despretensioso artigo será de natureza pedagógica. O ensino do desenho do desenho deve ser fundamentalmente um ensino de observação. A meu ver deve-se ensinar primeiro a estabelecer diferenças e não a entregarem a uma criança um lápis e um papel, dizendo estas palavras: - "faz um desenho"

Fialho conta nos «Gatos» se fez um bom pintor de caracteres por

ter sido educado na Escola Politécnica a observar insectos.

O problema básico da capacidade de formação do bom desenhista não é um problema que deve ser resolvido pela Psicologia, mas sim questão a tratar pela Teoria do conhecimento.

A educação dos olhos parece-nos tão necessária ao artista como a educação das mãos.

QUINTELA DE BRITO

"CORREIO DE COIMBRA"

07-06-56

 

 

 

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