PCRO BOATO E A LISONJA

João Quintela de Brito

Não é a lisonja fruto de um só indivíduo, nem característica de uma povoação país ou época...

Ofusca-se a razão humana, quando se pretende ser servil, lacaio ou instrumento passivo de outrem a quem de momento se é devedor ou peça de um complicado social, que obedece a autonomia instituída por tradição.

Faz-se de antemão uma análise bem electiva dos indivíduos a quem esta ou aquela critica é aceitável!...

"Há óculos lavrados de tal forma que as coisas pequenas representam como grandes, e outros pelo contrário, que as coisas grandes representam como pequenas.

A malícia ou ignorância humana também usa desta óptica: com os primeiros óculos vê as faltas das pessoas ordinárias a quem despreza, com as segundas as das pessoas sublimes de quem depende».

Manuel Bernardes, com a pureza da sua forma, espontaneidade e harmonia não podia ser por certo mais feliz ao abordar tal assunto.

Conta M. Bernardes que " um certo homem sábio, ao viajar da Baviera para o Tirol, veio a sucumbir de febres numa aldeia." Antes, de enterrarem o pobre homem, alguém tão curioso como alguns de vós, resolveu inventariar os seus pertences.

Desta maneira, tudo foi objecto de exame e o que, se lhes afigurava normal, era de novo colocado no seu lugar.

No entanto, entre os bens do douto homem, encontrava-se um microscópio. Naquela altura, época a que esta história remonta. seria exigir muito dos habitantes duma aldeia, que fosse conhecido tal instrumento óptico.

O instrumento passou de mão em mão, até que um dos curiosos acabou por ver um medonho bicho que causava pavor.

Estava já assente não enterrarem o desgraçado "feiticeiro" quando alguém inadvertida ou propositadamente, mexeu no microscópio.

Nessa altura o horrendo animal escapou-se e agora apresentava-se como um diminuto e vulgarizado ser: - uma pulga!

O espanto subsistiu em relação ao, temor que se apoderava daqueles homens para os quais tudo aquilo que fugia da normalidade era incontestavelmente tomado como sobrenatural, ou artificio de mal intencionados.

E difícil conhecer em pormenor as reacções daqueles indivíduos... Mas o que é certo, é que M. Bernardes, conseguiu com a narração de tal episódio, dar-nos a entender, o que é a compreensão humana em relação a distintas pessoas.

Numas, as suas faltas são pulgas, animais pouco desejáveis é certos, mas insignificantes; noutras elas são monstros... monstros jamais esquecidos pela ma vontade do homem!...

Mas quando chega o ajuste de contas, falta o responsável, falta o culpado!

Mas porque será que todos nós falseando entendimento e ofuscando a razão, usamos a tal óptica que ora aumenta ora diminui, ora confunde virtualidades e deturpa factos?

O senso comum, condena em boa verdade o boato! Mas ele aparece, primeiro como um fogo já não totalmente referenciado, é certo, mas de pouca importância relativa que num instante tudo abrasa. Esse fogo avança, e no seu caminhar avassalador, perde-se-lhe a causa, tal como o cobarde que foge da sua própria consciência.

O homem de hoje, fiel a certos princípios ancestrais da mais pura falta de carácter, resolveu, talvez como consequência do ócio que lhe permite um polir continuo das calçadas, ou um roçar de cotovelos pelas mesas dos cafés, dar largas a uma campanha de descrédito de todos aqueles, que mercê das suas qualidades, conseguem sobressair no meio da mediocridade geral.

Então não se poupa o clérigo, o estadista, o comerciante, etc. Tecem-se de antemão as mais maquiavélicas conjecturas para lhes perturbar o equilíbrio social...

Mas quando chega o ajuste de contas, falta o responsável, falta o culpado!

Indaga-se quem foi que disse! "Eu não sei, mas ouvi dizer"!

Época de carência, carência de honra e de carácter

Os desígnios não conhecem meios, obedecem a ordens planificadas, visando objectivos prévia e cuidadosamente escolhidos.

Não interessam amigos porque a amizade, no dizer de alguém "é um chapéu alto" já não se usa habitualmente

"CORREIO DE COIMBRA" (1959?)