Apontamentos

Ano de 1970

João Quintela de Brito

 

No desdobrar das páginas da Civilização Humana, mais uma grande página se vai voltar. Cheia de episódios, plena de conquistas, ávida de outras conquistas, desejosa de novas aquisições.

Mil, novecentos e sessenta e nove se finou. Mil novecentos e setenta chegou. Simples conceito baseado em considerações que mergulham nos séculos, mas que não obstam a que uma solução de continuidade se imponha ao homem. Nada nasce do homem para o homem dum momento para o outro e muito menos da natureza para este.

As conquistas, quando conseguidas processam-se ainda que em estado de latência, minuto a minuto, hora a hora, dia após dia, de ano para ano.

Nada se consegue dum segundo para outro.

Perde-se na bruma da história da medicina, a etapa grande, heróica mesmo das transfusões sanguíneas, em que de insucesso em insucesso o homem ganhou a autoridade que hoje a transfusão sanguínea adquiriu. No entanto, a modéstia à escala humana, obrigou-o e obrigá-lo-á a uma, lenta, mas secreta, pertinente, mas mal compreendida meditação, em suma!...

Com o correr dos tempos, temos assistido a uma corrida desmedida às transplantações sobretudo cardíacas. Aconselharia não só o bom senso, mas a natural ponderação que se procurasse algo, do binómio rejeição -combate à rejeição. No entanto, a euforia própria dum abalar fundamental dos conceitos humanos sobrepôs-se a toda a ponderação.

Bem vivas são na minha mente as palavras claras do bom sacerdote francês que tendo sido sujeito a uma transplantação cardíaca dizia ou fazia entender que vivendo talvez mais do que lhe fora permitido, o fazia sem ter um coração próprio... que não parecia ele... Que não era ele!

Ele que numa ânsia humana e por mim bem compreendida busca na calma determinação dum espírito bem formado a capacidade que a pouco e pouco o homem vai experimentando coma concessão dum Ser que o transcende… mas que não é atingível

Mil novecentos e sessenta e nove, ano tão importante como qualquer outro tão importante que trazendo algo de novo se tornou banal, corriqueiro, vulgar. Ano em que após milhões de anos, se supõe, que um ser terreno viveu pela primeira vez num planeta inóspito e até há pouco intrigante. Ano em que a descontinuidade de certas teorias, provou um certo compromisso entre as mesmas. Ano em que o homem encara um problema tão metafísico para a época como aquele que fora encarado em épocas de 1600 senão até anteriores. Um Mostrengo, um Adamastor, um éter um espaço em que corpos podem surgir dum momento para outro...

Euforia sabre euforia... No entanto aqui na terra morre-se dessa euforia. A Terra. ainda com uma vitalidade própria dum conjunto que permite a vida a muitos milhões de seres, treme de quando em quando, num paroxismo que faz medo. Pois que há problemas para além da física, problemas metafísicos...

Par vezes basta um simples parafuso, uma atmosfera mais rica em oxigénio, etc., que contraria em absoluto toda a avalanche conquistas...

No espírito perde-se talvez o nome daqueles americanos, ou quiçá doutros, de outros países que morreram, no momento da largada, ou já no espaço mas duma maneira geral todos se recordam dos nomes grandes daqueles que lançados da Terra poisaram na Lua.

Tão humana e a natureza do homem que esquece par vezes que se ultrapassa Mas coitada da humanidade que de conquista em conquista vai conquistando também uma angústia que não tem fim nem conhecera latitude...Há sempre algo de incompreensível ou de negativo na conquista. O Homem terá sempre que se adaptar depois de. conhecer o que de negativo existe em cada descoberta, em cada arranque...

Transplantações cardíacas, transfusões de sangue, uso de antibióticos, de pesticidas, etc., (para não falar em assuntos mais actuais...) e sempre o homem. O homem que não está livre de comer pão com D. D. T. como aconteceu há pouco no continente americano, morrendo as pessoas coma moscas... o homem que não está livre de morrer do uso dum antibiótico, o homem que mau grado a sua revolta que também é humana se não natural, descrê.

... E o homem que descrendo até da linha de força moral da entidade que durante séculos o orientou, começa a descrer... Q homem que volta a crer e que reconhece que se a medicina, a cirurgia, física, a química evoluem, também tem de evoluir a moral e as linhas de força que o orientam ainda que o "substractum da Doutrina", seja verdadeiramente imutável...

Durante o ano que finda, assistimos, ás mais espectaculares conquistas humanas

Poderia parecer que nada mais seria de esperar... Tal e como o acreditar que aquando da descoberta das armas de fogo o extermínio da humanidade estaria prestes...

O homem há-de continuar ser o homem, se se adaptar às civilizações. Há-de avançar no, progresso e na angústia, avançar mesmo na crença e na descrença, ciclicamente, mas o homem tem de se reencontrar e não será a mera dialéctica marxista ainda com certa dose de actualidade que o contente, ou que o satisfaça.

O homem, o verdadeiro homem não poderá deixar de acreditar que para. além do facto histórico, existiu um Jesus Cristo que disse: " Não façais aos outros o que não quereis que vos façam".

"NOVA ALIANÇA" 10 de Janeiro de 1970